Idade Média?

“Idade Média”, ”História Medieval” ou “Medievo” são referências a um período da história europeia, compreendido entre os séculos V e XV. Transição da Antiguidade para a Modernidade.
A Idade Média foi um período de intensas transformações. Há um novo sistema econômico, baseado no campo, o feudalismo, que não se aplicara de forma igual em todos os lugares; divisões religiosas, presentes dentro da Igreja Católica e no Islamismo; revoltas camponesas que objetivaram melhores condições de vida; intensas disputas por poder, por ascensão hierárquica; guerras por questões religiosas e econômicas e tantos outros fatores, por vezes ocultos por um saber estereotipado do período, restrito à cegueira mística do domínio religioso ou ao encantamento inventivo da sociedade cavalheiresca, seus castelos, lendas e maravilhas.
Na sociedade contemporânea, há uma grande valorização desse período, sobretudo na indústria cinematográfica. A presença de filmes com essa temática é a cada dia mais comum. E junto com esta “febre de Idade Média” em Hollywood, nascem algumas questões: Em que medida esses filmes nos ajudam a compreender a história medieval? Como devemos assisti-los? De forma passiva, como puro entretenimento? Certamente não. Ou, pelo contrário, como críticos intolerantes, cobrando-lhes a precisão dos textos acadêmicos? Tampouco. Talvez mais do que buscar fidelidade absoluta à historiografia, possamos encontrar nestes filmes faíscas para um debate em sala de aula: que imperfeições merecem ser problematizadas? Quais imagens ajudam a melhor assimilar lógicas distantes de um passado longínquo? Como transcender uma interpretação exclusivamente narrativa dos filmes para ir ao encontro de indícios de sua produção, relacionados, portanto, ao presente em que foram feitos, o que os torna não mais uma forma de historiografia, mas documentos, fontes para uma história do tempo presente.
Conhecer a “Idade Média dos dias de hoje” – a ideia que dela se faz atualmente – é um desafio que pode ser vencido através de um contato mais efetivo com a filmografia que a cerca. Mais do que conhecer as dinâmicas daquele período distante que demarca o nascimento do Ocidente, é preciso questionar também os usos do passado que cercam o “momento medieval” na contemporaneidade.
Por Professor Marcelo Robson Téo,
Lucas Kammer Orsi,
Lucas Santos
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The Message (1977)


Filme: The Message (1977)

Diretor: Moustapha Akkad
País: EUA
Idioma original: inglês e arábico
Duração: 177 min.
Gênero: Aventura, biografia e drama.






Sobre o diretor:


               Moustapha Akkad nasceu em Aleppo, Síria no dia 1 de julho de 1930. Aos 19 anos de idade viajou para os Estados Unidos a fim de seguir seu sonho de trabalhar com cinema. Em 1976 teve sua primeira experiência como um diretor no filme The Message. Além da direção, foi também o produtor. Dirigiu também O Leão do Deserto (1981), onde trabalhou novamente com Anthony Quinn, que fez o papel de Hamza o em The Message. Realizou ainda uma versão em árabe, a qual o forçou a filmar duas vezes boa parte do filme com outros atores para poder fazer a transição do inglês. A maioria dos seus trabalhos no cinema foi como produtor, participando como produtor dos oito primeiros filmes da série Halloween, começando esse trabalho em 1978. Como diretor, Moustapha Akkad traz sempre a visão do Mulçumano da História do surgimento de sua própria religião. Isso vale para ambos os filme dirigidos por ele (The Message e O Leão do Deserto).


Em 2005, junto com a filha, morreu após um ataque terrorista na Jordânia. Seu papel como diretor teve o objetivo levar para o Ocidente a historia do Islã, sua religião. Ele tomou para si mesmo esse trabalho de levar a história mulçumana, pouco conhecida no Ocidente:

I did the film because it is a personal thing for me. Besides its production values as a film, it has its story, its intrigue, its drama. Beside all this I think there was something personal, being Muslim myself who lived in the West I felt that it was my obligation, my duty, to tell the truth about Islam. It is a religion that has a 700-million following, yet it's so little known about it, which surprised me. I thought I should tell the story that will bring this bridge, this gap to the West.1
Sobre a produção do Filme:

O filme foi rodado na Líbia e no Marrocos, durando seis meses em cada localização. A história se passa no começo do século VII, na região de Medina e Mecca (atual Arábia Saudita). A escolha de atores de Hollywood foi nada menos que uma ação de propaganda para o filme. Com a utilização de atores conhecidos nos Estados Unidos, torna a aceitação do publico muito maior, já que o tema do filme é muito delicado, principalmente se tratando da politica externa dos Estados Unidos com relação ao Oriente Médio especificamente. Essa fragilidade do assunto pode ser vista no modo que no filme os cristãos são retratados. O único personagem cristão do filme é um rei, que fica localizado não muito distante de Mecca. A visão mostrada pelo filme é de um cristão pacífico, que aceita o outro apesar de sua religião, de reino onde nenhum homem é prejudicado, indiferente de sua religião. O motivo de Akkad mostrar o cristão assim vem do fato do seu público alvo, o cidadão dos Estados Unidos, que é cristão, e se tiver a visão de sua religião degradada no filme, o mesmo não teria como atingir sucesso, e transmitir sua mensagem para o público.

O filme tem uma preocupação importante em mostrar as vestimentas das populações, suas tradições do cotidiano como a do comercio. A musica muçulmana também é bem trabalhado, aparecendo em diversos momentos e de forma mais presente sempre que Maomé está na cena. 

Curiosidade:
Clérigos mulçumanos foram consultados pela produção do filme para a autenticação do material histórico e da “permissão” para fazer o filme. Após seis meses de filmagem o filme foi rejeitado pela Liga Mundial Mulçumana em Mecca. Com isso o governo da Arábia Saudita pressionou o Marrocos para parar com a produção. Após serem expulsos de Marrocos, Akkad foi pedir apoio a Muammar Gaddafi, que, além de financiar este filme de Akkad, deu apoio financeiro de $35 milhões de dólares para outro filme de Akkad, Leão do Deserto (1981).

O filme:
              Maomé por motivos religiosos, não é mostrado ou ouvido no filme. Em todo momento que Maomé tem sua presença mostrada no filme, à câmera se torna seu ponto de vista (como se fosse em primeira pessoa) e uma musica serena é tocada no fundo. Suas falas são repetidas pelos personagens a sua volta, para não haver o uso de sua voz. Comerciante de Mecca que tem o hábito de se isolar em uma caverna nas montanhas da região, tem uma revelação ao longo de um de seus retiros. Tal revelação ocorre aos quarenta anos de idade. Deste momento em diante ele passa a pregar a mensagem Islâmica.
No início apenas alguns se juntam a Maomé. A elite local, liderada por Abu Sofyan tenta eliminar Maomé e sua nova religião. Hamza, tio de Maomé e seu filho adotivo tem na narrativa de Akkad o papel principal. Com a perseguição, todos os seus fieis são obrigados a migrar para um reino cristão próximo, que concede a eles a cidade de Medina. Em Medina, o que eram algumas centenas de seguidores tornou-se milhares. A perseguição religiosa nunca cessou, levando Hamza a persuadir Maomé a entrar em guerra com as elites de Mecca, que saquearam todos os pertences dos seguidores de Maomé, deixados em Mecca.
Uma caravana é montada com os pertences saqueados de Mecca. Maomé formula um plano de guerra, de interceptar a caravana em um posto de parada, um lugar com diversas fontes de agua, que necessária para o abastecimento e descanso. Liderado por Hamza (Maomé que liderou a batalha, mas como o filme não pode mostrar a figura do profeta, Hamza foi colocado na liderança) o exercito Islâmico consegue a vitória.
Após esta vitória anos se passam e vários conflitos entre as elites de Mecca e Mohammad ocorrem, até que ambos os lados, esgotados, chegam a um acordo de trégua de dez anos. Durante esse tempo os seguidores de Maomé crescem, e muito. Em algum momento, alguns soldados de Mecca a cavalo, são mandados sem a permissão de Abu Sofyan (o mais importante líder de Mecca) para trair o acordo, matando alguns soldados de Maomé.
Então com a quebra do acordo o profeta junta seus soldados e marcha para Mecca. Neste momento o exercito islâmico já era maior que o de Mecca. Abu Sofyan sabendo da derrota iminente vai ao acampamento de Maomé para converter-se ao Islã e impedir a destruição de sua cidade, devido ao cerco que a cidade sofreria.
Mecca rende-se pacificamente a Maomé que, não saqueia de forma alguma, apenas ocupa a cidade e volta para sua casa, Mecca. 
A proposta do filme é de ser uma propaganda religiosa. Talvez não seja de modo escancarado, mas mesclado com o extenso trabalho historiográfico feito ao redor do filme. Akkad como mulçumano queria trazer para o mundo ocidental a história da sua religião, muito pouco conhecida. São mostrados constantemente os princípios do Islamismo (exemplo: na religião mulçumana todo fiel é igual, não importa a raça ou posição social). Outro aspecto é o da facilidade da conversão para o Islã, que ao ouvir um simples discurso largam os deuses de sua antiga religião e aderem às profecias de Maomé. A sensação que o filme passa sobre este aspecto é que as populações não tinham uma identificação com religiões locais.

Atividades
               Sugiro que seja feito em sala de aula uma atividade composta com a análise da figura de Maomé histórico e o do filme, discutindo o porquê de não mostrar sua figura, e o porquê da religião islâmica condenar a adoração de ídolos.


Referências:






Por Vitor Valente
Aluno do curso de História FAED/UDESC
Turma de 2013/1

Robin Hood: Prince of Thieves (1991)

Ficha técnica
Filme: Robin Hood: Prince of Thieves (1991)
Diretor: Kevin Reynolds
Roteiro: Pen Densham e John Watson
País: EUA
Idioma original: inglês
Duração: 145 min.
Gênero: aventura


Sobre o diretor
Kevin Hall Reynolds (1952) é um diretor e roteirista estadunidense conhecido por criar longas-metragens inspirados em obras literárias épicas, como é o caso de O Conde de Monte Cristo, Waterworld e Robin Hood, este último, causou grande sucesso no início dos anos 1990. Nascido no Texas é formado em direito pela Universidade Baylor e em cinema pela USC School of Cinema-Television.

Sobre a lenda medieval que inspirou o filme
              Diversos historiadores procuraram vestígios que comprovasse o verdadeiro indivíduo Robin Hood, porém, esses estudos mostram que esse nome era mais um arquétipo, ou seja, um modelo que era usado para descrever comportamento criminal de pessoas que roubavam.
              Já na literatura, Robin Hood, possuí centenas de aparições. Seus vestígios aparecem em 1377, no poema Piers Plowman, de William Langland, e em 1450 em Robin Hood and the Monk ("Robin Hood e o monge”).

“O primeiro registro impresso preservado data de 1475: a coleção de histórias The Adventures of Robyn Hode (‘As aventuras de Robyn Hode’), que delineia seu comportamento heroico. Nas contas das crônicas medievais, da tradição oral e escrita, o bando do arqueiro tinha um efetivo de 20 a 140 homens, com destaque para João Pequeno [...] e o frei Tuck [...]” [1].

              Em suas aparições do século XVI, Robin aparece como sendo um nobre defensor do rei Ricardo Coração de Leão (que reinou entre 1189 e 1199), quando seu irmão João quer usurpar o trono inglês, durante sua ausência devido a Terceira Cruzada (1190). Hood torna-se um fora da lei por lutar contra os altos impostos cobrados, visto na imagem do xerife de Nottingham. No século XVII o herói ganha novos motivos para lutar, principalmente contra o poder da Igreja Católica, devido ao contexto histórico da pós-Reforma.
              Apenas no século XVIII a personagem de Lady Marion entra na narrativa como sendo a amante do arqueiro. Seu contorno patriótico é posto no século XIX, um homem forte e que luta pelos direitos do seu povo. Como é atualmente lembrado, sendo esse grande herói que “rouba dos ricos para dar aos pobres” e que aparece frequentemente tanto na literatura quanto nos filmes e séries.

Proposta didática
Pode-se fazer uma análise crítica dos meios literários e dos midiáticos que retratam o personagem Robin Hood. Cada época representou de formas diferentes esse indivíduo, incorporou novas características, novos personagens e novos inimigos. É interessante pensarmos o porquê dessas alterações, qual o contexto da produção dessas obras e qual arquétipo desejam passar para o público.
Sendo assim, o docente pode selecionar várias versões da história de Robin Hood, desde filmes e séries até livros de literatura, desenhos e quadrinhos, e apresenta-los aos estudantes e iniciar um exercício de análise entre as formas de retratar o personagem. Quais são suas principais caraterísticas? Em qual época está sendo retratado? Quais são os demais personagens que estão sendo retratados? Ele é algum tipo de “herói”? Luta contra alguém ou algum sistema? Estas são algumas, entre outras perguntas que podem ser desenvolvidas, sempre indagando o porquê daquele determinado autor construir o protagonista daquele modo.
Com essa atividade pode-se incentivar os discentes a continuarem com esse exercício de contestação frente aos demais meios midiáticos. Fazendo perguntas a obra e buscando descobrir qual o contexto da produção, assim como a finalidade do filme e para qual público é dirigido.
  
Resumo do filme
              O contexto que se passa o filme é a última década do século XII, quando o rei Ricardo I parte para a Terceira Cruzada em direção a Jerusalém, onde inicia o filme com Robin de Locksley (Kevin Costner) preso junto com outros guerreiros e mouros. Graças sua habilidade consegue escapar levando consigo Azeem (Morgan Freeman), um mouro que jurou pagar uma dívida por salvar sua vida, e juntos conseguem chegar a Nottingham. Lá descobrem que Lord Locksley, pai de Robin, foi assassinado pelo grupo liderado pelo xerife (Alan Rickman), o qual tinha um plano para usurpar o trono da Inglaterra. Tendo um desentendimento com o primo do xerife, Guy de Gisborne, por salvar o pequeno Wulf (Daniel Newman), é considerado um fora da lei, e vai em direção da floresta de Sherwood em busca de abrigo. Se encontrando com o grupo liderado por John Little, prova sua coragem e faz amizade com esses “homens da floresta”.
              Após isso, o filme apresenta a crescente popularidade do personagem, como qual nos é posta atualmente, como aquele homem que “rouba dos ricos para dar aos pobres”, lutando contra os altos impostos e a exploração dos colonos. Enraivecido o xerife de Nottingham, coloca sua cabeça a prêmio e tenta assassinar Robin várias vezes, principalmente quando este descobre seu plano de destronar o rei Ricardo, Coração de Leão (Sean Connery). Até que finalmente consegue articular um ataque com sucesso ao esconderijo de Hood, capturando alguns homens e o menino Wulf, e sequestrando Lady Marion (Mary Elizabeth Mastrantonio) para forçá-la a se casar com ele e gerar um filho legítimo, já que Marion era prima do rei.
              O ápice do filme é a batalha para salvar esses amigos capturados e a amada de Robin Hood. Montando todo um esquema para entrar no castelo e havendo muitas batalhas e discursos inspiradores, Robin juntamente com seu fiel amigo Azeem conseguem salvar Marion e matar o xerife. A história termina em festa com o casamento de Robin Hood e Lady Marion na floresta de Sherwood.
Análise
            Apesar da trama já esperada, Kevin Reynolds incorpora alguns personagens que não condizem com a lenda[2], como o meio irmão de Robin, Will e a uma bruxa, que seria a mãe do xerife, ambos os personagens são revelados no final do filme de modo inesperado, dando um pouco mais de emoção a narrativa. Além disso, o diretor é coerente em relação ao cenário, a floresta de Sherwood, as construções, o espaço físico em geral, e se preocupa também com o figurino ambientado da época medieval.
            Uma análise muito interessante que podemos fazer é sobre a presença da Igreja Católica, já no início do filme onde o pai de Robin contesta o porquê de realizar as cruzadas, impor a força uma religião a outros grupos. Outro fato é a autenticação de um filho legítimo apenas com o casamente efetivo, mostrado até de forma meio cômica no final da histórica, quando o xerife quer se casar com Lady Marion e após isso estuprá-la para conceber um filho herdeiro.
            Outro ponto que merece destaque é a tentativa por parte de Reynolds em quebrar com estereótipos acerca do Islã. Em muitas cenas o diretor procura mostrar Azeem, o mouro, como sendo detentor de tecnologias, como a luneta, onde ironicamente o estrangeiro pergunta “como seu povo ignorante tomou Jerusalém?”, ao perceber que o protagonista ficou assustado com o objeto; juntamente com o domínio do parto por cesariana. Traz também na narrativa um pouco da religião islâmica, como os momentos de orações e da recusa à bebida alcoólica, entre outras características que desmistificam essa cultura, fazendo comparações com a Igreja Católica. Sendo assim, um dos principais pontos do diretor é quebrar com essa ideia de “selvagem”, modo como são apresentados os mouros durante as Cruzadas.
              Agora retornando a coerência com a lenda, o personagem Robin Hood é visto como o autêntico herói: homem, forte, atencioso, humilde, que junto com seu carisma e sua paixão procura salvar todos, e com coragem enfrenta todos os desafios. Esse estereótipo de “homem do bem” é muito presente tanto nas lendas a partir do final do século XVIII, como nos filmes, nos desenhos e nas obras literárias. Na parte dos “maus”, se encontram o arqui-inimigo de Robin, o Xerife de Nottingham, porém no filme de 1991, a verdadeira mente do mal é a chamada bruxa, a mãe do xerife, que é quem bola todo o trama para usurpar o trono da Inglaterra, deixando seu filho mais como um “peão” do plano. Essa separação entre o bem e o mal é muito evidente na narrativa, corrente nos filmes hollywoodianos.
              De forma geral, o filme apresenta muitas características que coincidem com a época do final do século XII e início do XIII, como a Terceira Cruzada comandada por Ricardo I, momento em que se passa a narrativa e também nos demais aspectos físicos, como os já contemplados anteriormente. Porém não devemos deixar de criticar a mentalidade dos personagens, referente aos ideais de heróis de séculos posteriores. Como apresentado por Roberto Sinqueira,

“Kevin Reynolds até apresenta cenas interessantes, [...] mas infelizmente o longa não passa de uma diversão sem compromisso. Talvez Reynolds tivesse a melhor das intenções ao juntar um ótimo elenco para contar a lendária história de Robin Hood. Mas, nas palavras de Azeem, ‘não existem homens perfeitos, somente intenções perfeitas’” [3].

              O filme conseguiu fazer muito sucesso ao ser lançado e conquistou o Grammy Awards na categoria “Best Song Written Specifically for a Motion Picture or Television” em 1992, com a trilha sonora de Bryan Adams, “(Everything I Do) I Do It for You", além de fazer referências coerentes com a época medieval, apresentando os problemas como a fome e a pobreza e o imaginário sobre os mouros. Contanto, não se preocupa em se basear em fatos históricos concretos.
              As diferentes percepções sobre a figura de Robin Hood ajudam a compreender como cada época pensou as relações entre a lei e a exclusão social. Além disso, a adição e mudança de certos personagens revelam o contexto de cada período e o local em que foram produzidos, assim como os problemas, as necessidades e os desejos desses indivíduos. Desse modo, deve-se analisar não o personagem em si, mas o que ele representa para aquela determinada sociedade.

Por Talita Garcia Ferreira
Aluna do curso de História FAED – UDESC
Turma de História Medieval 2013/2




[1] (DUARTE, Fernando, Em busca de Robin Hood, in Aventuras na História, 2010).  Disponível em http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/busca-robin-hood-565163.shtml.
[2] Existem diversas lendas sobre o personagem de Robin Hood, a maioria delas segue uma narrativa central que consistem em um homem que rouba dos ricos para dar aos pobres, sendo acompanhado por dois fiéis amigos.
[3] (SINQUEIRA, Roberto, Robin Hood: Prince of Thieves, in Cinema e Debate, 2010). Disponível em http://cinemaedebate.com/2010/12/23/robin-hood-%E2%80%93-o-principe-dos-ladroes-1991/

Ivanhoé (1952)

Filme: Ivanhoé (1952)
Diretor: Richard Thorpe
País: Estados Unidos
Idioma original: Inglês
Duração:106 minutos
Gênero: Aventura





Sobre o Diretor:
Richard Thorpe nasceu em 24 de fevereiro de 1896 em Hutchinson em Kansas, começou atuando e dirigiu seu primeiro filme em 1923. Foi um diretor conhecido pela sua longa carreira nos estúdios da MGM, participou da direção de mais de 180 filmes, tendo entre eles três filmes com o a temática medievalista, estrelando Robert Taylor, que incluía Ivanhoé (1952), Os cavaleiros da Távola Redonda(1953) e As Aventuras de Quentin Durward (1995). Não possuíam uma interligação, todos eles gravados em estúdios britânicos da MGM, estes filmes ajudaram a construir um imaginário sobre os cavaleiros medievais e seus códigos.

Sobre o Romance que Inspirou o Filme:
Escrito por Walter Scott, o romance conta os esforços do cavaleiro Wilfred de Ivanhoé para resgatar o rei Ricardo Coração de Leão, que havia sido sequestrado por Leopoldo da Áustria. Leopoldo pediu a quatis de 150.000 marcos de prata pelo resgate de Ricardo, logo após a terceira cruzada. O príncipe João mesmo sabendo da condição de seu irmão nega o resgate
O romance surge em 1820 com o objetivo nacionalista de exaltar os valores e códigos dos cavaleiros, e também o heroísmo inglês frente aso franceses. O romance obteve tamanho prestígio que deu ao autor o título nobiliárquico de Sir.

Resenha do Filme:

O filme conta a história do cavalariço do rei, Ricardo Coração de Leão, que é mantido como cativo por Leopoldo da Áustria, que cobra um alto resgate. Ivanhoé (Robert Taylor) tenta conseguir esse resgate com seu pai e os saxões, no entanto tal grupo não dispõe da quantia total. Ivanhoé acaba criando um laço de amizade com um judeu chamado Isaac, pedindo-lhe ajuda para levantar o dinheiro do resgate, assegurando da parte do rei que os judeus teriam um melhor tratamento. Logo depois Ivanhoé é recompensado pela filha de Isaac (Elizabeth Taylor) com uma caixa de joias para que pudesse competir num importante torneio.
No campeonato ele desafia todos os campeões da Normandia, vencendo com facilidade os três primeiros. Ele vence o quarto, mas fica gravemente ferido. Na última luta, enfraquecido, acaba caindo e tem de ser levado para ser cuidado pela filha de Isaac. Querendo escapar do príncipe João, ele é levado a floresta sob o cuidado de Robin Hood. Enquanto isso seu pai, sua noiva (Jean Fontaine), e a filha de Isaac são capturados e mantidos como reféns. Sabendo disso ele se dá em troca da liberdade deles, os normandos não honram sua palavra e mantem todos cativos.
Ivanhoé consegue resgatar todos, menos a filha de Isaac, que é usada como escudo por um cavaleiro normando que se apaixona por ela, logo depois ela é sentenciada a fogueira, porem Ivanhoé invoca o desafio veredicto em que deve lutar com o cavaleiro que se apaixona por ela. Nesse meio tempo é mandado o valor do resgate de Ricardo, o duelo acaba com a vitória de Ivanhoé e com Ricardo voltando para reaver seu trono.

O Filme e a Idade Média

O filme mostra uma visão romantizada da Idade Média, e também dos cavaleiros. É importante frisar que o filme é baseado em um romance que possuía o intuito de exaltar a Inglaterra frente a França, bem como o heroísmo de seus cavaleiros. Essa ideia nacionalista, e de exaltação de valores de outra época foi usado pelo escritor pra mostrar a coragem do ingleses diante aos franceses, ao vencerem o imperador Napoleão Bonaparte na batalha de Waterloo em 1815. Não é à toa que os cavaleiros saxões são mostrados como honrosos e corajosos, exemplo disso é o trecho em que o
protagonista se entrega em troca de seus conhecidos e os cavaleiros normandos não honram o trato. Não faltam no filme insultos aos cavaleiros normandos pela parte do saxões. Não por acaso o filme foi muito bem recebido na Inglaterra.
As cenas de batalhas são lindamente coreografadas, os figurinos são bem detalhados e muito bem feitos. Porém o filme peca um pouco no que diz respeito a contar a história e acaba dando muita atenção ao visual, deixando a desejar nos diálogos que muitas vezes são curtos e com poucas informações, o que altera a lógica de continuidade.
Apesar do protagonista, Ivanhoé, é interessante lembrar que os personagens coadjuvantes muitas vezes desempenham um papel crucial na história como por exemplo Robin Hood e também o cavaleiro templário normando Bois Guilbert que seria o principal rival de Ivanhoé.
O filme acaba sendo um daqueles clichês de hollywood, a narrativa clássica com mocinho vilão e donzela, e apesar de não ser tão preciso historicamente principalmente pelo fato de ser baseado num romance do século XIX, ele ainda serve para nos mostrar o imaginário criado acerca da época e também dos códigos de conduta da sociedade cavaleiresca.
Este filme pode ser uma ótima ferramenta em sala de aula, uma vez que nos ajuda a enxergar as apropriações contemporâneas da Idade Média, sejam elas campeonatos de lutas medievais, restaurantes temáticos entre outras apropriações do passado, nos mostrando que não só do passado se ocupa história mais também de suas apropriações no tempo presente.


CURIOSIDADE: O filme teve três indicações ao Oscar de melhor filme, melhor cinematografia, melhor música e também dois prêmios do globo de ouro como melhor trilha sonora e também por promover a paz entre os povos. Para maiores informações sobre a sociedade cavalheiresca, ver DUBY, Georges. A sociedade cavalheiresca. São Paulo: Martins Fontes, 1989.



Por André Vinicius Durante Piva
Aluno do curso de História FAED-UDESC
Turma 2013/1

A Flauta Mágica


Filme: A Flauta Mágica     
Diretor: Jacques Demy     
País: Inglaterra/Estados Unidos 
Idioma Original: Inglês      
Duração: 87 minutos         
Gênero: Aventura









Sobre o diretor:     
            De nacionalidade francesa, Jacques Demy é responsável por dirigir filmes vencedores de muitos prêmios. O conjunto de suas obras, produzido entre o início e o final das décadas de 60 e 80, parte de um olhar romanceado. Sua narrativa se fundamenta não só no desenrolar de um roteiro, mas busca envolver o espectador. Como afirma o próprio Demy, ao referir-se à sua obra “Duas Garotas Românticas”, que narra a história de duas irmãs gêmeas, artistas, que sonham viver aventuras em Paris: "Queria fazer um filme que despertasse um sentimento de felicidade, que, depois da projeção, o espectador saísse da sala menos triste do que quando tinha entrado”.    
            Com formação na Escola Técnica de Fotografia e Cinematografia de Paris, muitas de suas produções narram os desejos e os fascínios que a “Cidade Luz” desperta nos diferentes tipos de personagens por ele modelados.
            Frequente em suas obras, a música recebe um papel de destaque. Suas canções, compostas quase exclusivamente para o filme, merecem reconhecimento. Sua composição “I Will Wait for You”, presente no filme “Les Demoiselles de Rochefort”, assim como sua trilha sonora, foram
indicados ao Oscar.
Lenda que inspirou o filme:
               Popularmente conhecida, a lenda do Flautista de Hamelin foi registrada pelos Irmãos Grimm, famosos por se dedicarem ao registro de fábulas infanto-juvenis, no século XIX. Há muitas variações dessa lenda. Uma das versões, de modo resumido, narra:       

            Tempos atrás, na cidade de Hamelin, os habitantes sofriam com uma infestação de ratos. Em uma noite escura, chega à cidade um homem vestido com roupas muito coloridas, a tocar uma flauta. O prefeito da cidade quis conhecer o visitante, pois ficou sabendo que sua flauta era mágica. O prefeito então fez um trato com o flautista para que ele encantasse os ratos, levando-os para fora da cidade.
             Assim fez o estranho visitante, porém, o prefeito não pagou o combinado. Irritado, o flautista encanta as crianças para fora da cidade. Pressionado pelos habitantes, o prefeito resolve pagar o flautista, mas ele havia sumido. No dia seguinte, o prefeito e os habitantes da cidade encontram os corpos das crianças boiando nas águas de um rio próximo a cidade.

O FILME:
A Flauta e a Fogueira: Fábula e caos na Idade Média
            “Alemanha do Norte, 1349”. Essa referência espaço-temporal inicia o filme, assim como as referências históricas nele presente. A partir dela, podemos subentender que o propósito da obra seja construir uma narrativa histórica.
            Ok, mas essa proposta não se prende ao cenário descrito em livros! Construções cinematográficas, tal como essa, vão além, montam um cenário a partir de outros elementos. Assim nos afirma a especialista em língua portuguesa e pesquisadora de temas ligados ao período medieval, Lênia Márcia Mongelli:
Por “reminiscências medievais” devem-se entender as formas de apropriação dos vestígios do que um dia pertenceu ao Medievo, alterados e/ou transformados com o passar do tempo. Nesta categoria encontram-se, por exemplo, as festas, os costumes populares, as tradições orais de cunho folclórico que remontam aos século anteriores ao XV e que preservam algo ainda do momento que foram criados, mesmo tendo sofrido acréscimos, adaptações ou alterações no decurso dos séculos.
(MACEDO, José Rivair; MONGELLI, Lênia Márcia. A Idade Média no cinema. São Paulo: Ateliê Editorial, 2009, página 15).
            Ou seja, mesmo baseando-se em uma lenda, a obra pode ser considerada uma narrativa histórica, pois a lenda é uma reminiscência, ela é fruto do imaginário da sociedade medieval.           
            Acompanhamos, na tela, o desenrolar da viagem de uma família de artistas que partem de Hanover para a cidade de Hamelin. No caminho, acolhem para o seu grupo outros dois viajantes, um peregrino que é apegado a relíquias sagradas e um músico. Deparam-se com casas e vilas abandonadas, infestadas de ratos. Todos esses elementos buscam ilustrar o cenário medieval. A fé nas relíquias sagradas surgia do desejo de salvação e proteção, sustentados por uma mentalidade cristã, dominante durante esse período. O músico itinerante que se sustenta por meio de apresentações em diferentes aldeias, reinos. E, referencial da Idade Média, a infestação de ratos, responsáveis pela temida peste negra, que resulta na morte de milhões de pessoas, além do caos e desordem gerados nas concentrações urbanas, devido ao temor da propagação da peste e dos discursos poucos eficazes proferidos pela Igreja e por outros governantes, que não visavam práticas preventivas ou reparadoras, mas buscavam culpados pelo “castigo de Deus” e aguardavam que o mesmo os livra-se daquele mal.           
            Em Hamelin, inúmeras histórias desenrolam-se. O velho e sábio Melius, denominado de judeu e alquimista, busca alertar e resolver os futuros problemas da cidade por meio de seus experimentos. Gavin, jovem manco, ajudante de Melius, frustra-se constantemente por seu problema físico e acredita que por causa dele não consegue desenvolver nenhuma habilidade; também o perturba a impossibilidade de poder ficar com sua amiga, talvez amada, Lisa. Ela, filha do prefeito, está destinada a casar-se com o Barão local. O prefeito, o Barão e um conjunto de bispos governam a cidade a partir das ordens do Papa Clemente VI – outra referência histórica – e seus desejos pessoais.  
            A trama desenvolve-se por conflitos existentes na cobrança de impostos, a opressão religiosa e o temor da expansão de doenças.
            Eis que surge o ápice, o bolo de casamento do Barão e da filha do prefeito “está recheado de ratos”. Igreja, governo e população buscam encontrar soluções para o problema. Repentinamente, o Flautista se dispõe a solucioná-lo. Agora, não vemos apenas o músico, mas o ser mítico resolvendo o problema. Surge aí um impasse: passa-se a confundir o real material e imaterial. Esses conceitos nos apontam que em uma única ação – o encantamento pela flauta – o flautista músico e sobrenatural se confundem, pois além da narrativa devemos crer nos poderes sobrenaturais do flautista para compreendê-la. Especialista em medieval, Jacques Le Goff nos afirma:  

“Esta primeira lista [refere-se a personagens citadas anteriormente; Merlin, Robin Hood, Papisa Joana, Melusina, Rei Artur, El Cid, Carlos Magno] mostra que, entre história e lenda, entre realidade e imaginação, o imaginário medieval constrói um mundo misto que constitui o tecido da realidade cuja origem se encontra na irrealidade dos seres que seduzem a imaginação dos homens e mulheres da Idade Média.” (LE GOFF, Heróis e maravilhas da Idade Média. Rio de Janeiro: Vozes, 2009, pág. 17).          
            Por fim, a obra é concluída com uma nova referência:        
 
“A Peste Negra terminou quatro anos depois, matando aproximadamente 75.000.000 de pessoas. A perseguição religiosa que se seguiu permanece sem paralelo até este século. Quanto ao Flautista Mágico, ele nunca mais foi visto, e se as crianças alcançaram as terras de suas canções, nunca se soube. Mas uma cruz jaz na praça da cidade, marcando o local onde as crianças dançaram..."
“... Há muito tempo, numa próspera aldeia, fora de Hamelim, na Terra de Brunswick”. (Robert Browing, 1888).


            Escolher Donovan* para representar o Flautista explicita o cuidado em ilustrá-lo como habilidoso. Talvez, não intencionalmente, apresentar uma pessoa de fácil confiança, pois o músico alcançara sucesso internacional na década de 70. Esse elemento também pode ser pensando a partir da ideia de um herói renascentista, caracteristicamente humanista, pois parece ser alheio ao contexto que pertence.
            Ainda assim, a narrativa da obra é formada, essencialmente, na busca por construir um cenário medieval. Seu ritmo diferenciado, mais lento que os demais filmes, quando associado diretamente ao período pode dar a ideia de lentidão.    
            Apesar desses elementos que comprometem a reprodução da obra em sala de aula, parece ser adequada para estabelecer paralelos com o período histórico de fato, especialmente, quando se refere à construção de uma imagem do período, pois nos é apresentado as relações de poder entre barões, prefeitos e líderes da Igreja; a cobrança abusiva de impostos; a insatisfação popular e preocupação com os recursos alimentícios – podendo ser relacionado com a origem de revoltas camponesas conhecidas na Idade Média tais como a revolta do Jacques e a revolta de 1381 na Inglaterra; a mutabilidade das ocupações do homem medieval, em que soldados trabalhavam na construção da Catedral e, extraordinariamente, o processo de associação da infestação de ratos com as doenças vindas posteriormente. Esses elementos presentes na obra oportunizam a visualização mental de casos particulares de um período histórico, tais como uma Idade Média Inquisidora e um medievo fantástico.


*Donovan Philips Leitch
É músico, multi-instrumentista e compositor do cenário musical britânico. Na década de 70 consolida seu sucesso alcançando fama internacional. Durante esse período, lança oito álbuns. Suas canções são essencialmente caracterizadas pelo estilo “folk”.
 


Propostas de Atividade:
   A análise desse filme nos permite inúmeras reflexões. Logo, sugerimos algumas propostas de atividades que visam auxiliar na compreensão de elementos presentes no filme.

    O Lendário   
Analisar a imagem e representação do Flautista no filme; compreender como ele foi construído e traçar paralelos com o “imaginário medieval”.
Projetos em parceria com as disciplinas de Literatura e/ou Artes podem ser realizados, visando compreender as diferenças entre as narrativas existentes, a representação mítica, a transposição de um ser “abstrato” para o “concreto”, e os limites existentes entre História e lenda.
Além disso, é possível incentivar comparações entre a lenda narrada por Robert Browing e como a mesma se faz presente na obra cinematográfica.
            Obra de Robert Browing pode ser acessada no link abaixo:
http://www.indiana.edu/~librcsd/etext/piper/

     A Música 
Esclarecer os diferentes usos e atribuições da música ao longo da História. Atentar para o uso de anacronismos na obra, tais como a utilização de um violão característico do século XVIII e o estilo musical, que se encontra muito distante do que, apesar de termos conhecimento sobre poucos registros, era produzido popularmente e do canto gregoriano que fora institucionalizado pela Igreja Católica durante a Idade Média e é um referencial da musicalidade do medievo.


    Saúde e Meio Ambiente      
Observar o planejamento urbano; as práticas de higiene e o preparo e armazenamento de alimentos.       Também, compreender os hábitos diários do cidadão do medievo. Realizar debate acerca da propagação de pragas e doenças, tal como a Peste Negra. Enumerar algumas práticas, viáveis para o período, a fim de conter a propagação de pragas e prevenção de doenças.


    Questão mítico-filosófica     
            Analisar como o alquimista Melius assemelha-se a um feiticeiro; estabelecer paralelos entre o alquimista que habita o imaginário medieval e o cientista. De maneira semelhante, discutir a Pedra Filosofal idealizada e a definição física e química desse objeto científico. 
A elaboração de projetos entre as disciplinas de história, física e química são de extremo valor para a consolidação de um melhor entendimento acerca das pretensões, desejos e idealizações do ser humano no Período Medieval.   
            Caso haja tempo, para melhor visualização de diferentes idealizações de um objeto ao longo do tempo, contrapor essa obra com o filme “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (Chris Columbus, 2001), a fim de traçar relações com as diferentes atribuições desse mesmo elemento. Considerar que esse filme, assim como toda a franquia, é um referencial na imaginação infanto-juvenil, além de ser constantemente citado em veículos de comunicação
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Por Lucas Santos
Aluno do curso de História - FAED/UDESC
Turma 2013/1

Robin Hood (2010)


Filme: Robin Hood (2010)
Diretor: Ridley Scott
País: EUA
Idioma original: inglês
Duração: 155 min.
Gênero: aventura.

Sobre o diretor:
Ridley Scott (1937) é diretor e produtor de cinema, inglês conhecido por longas-metragens históricos e de grande sucesso de bilheteria como o filme Cruzadas (2005) e Gladiador (2000). Ridley Scott foi indicado a diversos prêmios com o filme Gladiador e em grande parte é muito bem elogiado pela crítica. Seus filmes históricos sempre tratam de algum tipo de conflito, seja ele em batalhas ou de ideologias (um exemplo é o filme Cruzadas, que foi feito para tentar mostrar a cultura islâmica como algo naturalmente mal e que merecesse ser controlado e as pessoas presentes nesta religião salvas); ou o caso do filme 1492: A Conquista do Paraíso com representações de conflitos entre igreja e ciência, imaginário e realidade, o que nos permite analisar um pouco melhor escolhido para esta resenha que demonstra bem a rixa entre Inglaterra e França que posteriormente veio a dar origem a Guerra dos 100 Anos. Outro ponto que chama atenção é a religiosidade que aparece muito em seus filmes históricos e este não é exceção.

Filmografia:

Ø  Como Diretor:[1]

19921492: A Conquista do Paraíso
2000Gladiador
2005Cruzada
2010Robin Hood

Sobre a lenda medieval que inspirou o filme:
A Lenda de Robin Hood, muitas vezes chamado de Herói dos Pobres, surgiu na Inglaterra e provavelmente teria vivido no século XIII, porém sua primeira aparição na literatura dará do século XIV. Robin Hood pode ser interpretado como o introdutor de um personagem representativo dos foras da lei e/ou rebeldes justiceiros. 
Na lenda Robin Hood é interpretado como um grande herói das florestas e dos pobres que possui como seu maior inimigo a representação de um poder político e social, conhecido como xerife de Nottingham. Robin Hood então seria o herói que rouba dos ricos egoístas para realizar sua justiça e dar aos pobres o que, em sua visão, seria por direito deles.

A versão que exponho da lenda narra os seguintes fatos da vida deste herói do imaginário medieval: Em função da usurpação do trono, o príncipe John, teria passado a governar a Inglaterra, aumentando os impostos e também destruindo o castelo onde morava Robin Hood com seu pai, o barão de Locksley. Órfão e sem ter onde morar, o herói passa a morar na floresta junto a um grupo de homens liderados por ele. Juntos, lutariam contra o príncipe John.

Na versão de Ridley Scott, Robin Hood seria um cavaleiro que ao observar certos fatos relacionados a um golpe na coroa passaria a ser procurado para morte. Nesta versão ele também não é órfão, apenas foi abandonado pelos pais e é apresentado como um herói mais “humano” do que o das outras lendas envolvido pela luxuria, prazer e roubos pessoais ligados a este lado da justiça que é sempre presente.

Resenha do filme:
A sinopse do filme Robin Hood (2010), dirigido por Ridley Scott, chama inicialmente a atenção para característica de interpretação da lenda do herói medieval. Por esta sinopse, Robin Hood e o grupo de homens que vivia na floresta seriam ladrões e saqueadores que só se preocupavam consigo mesmos.


Robin Longstride (Russell Crowe) integra o exército do rei Ricardo Coração de Leão (Danny Huston), que está em plenas cruzadas. Após a morte do rei, ele consegue escapar juntamente com alguns companheiros. Em sua tentativa de fuga eles encontram Sir Robert Loxley (Douglas Hodge), que tinha por missão levar a coroa do rei a Londres. Loxley foi atacado por Godfrey (Mark Strong), um inglês que serve secretamente aos interesses do rei Filipe, da França. À beira da morte, Loxley pede a Robin que entregue a seu pai uma espada tradicional da família. Ele aceita a missão e, vestido como se fosse um cavaleiro real, parte para Londres. Após entregar a coroa ao príncipe João (Oscar Isaac), que é nomeado rei, Robin parte para Nottingham. Lá conhece Sir Walter (Max von Sydow) e Marion (Cate Blanchett), respectivamente pai e esposa de Loxley. (http://www.adorocinema.com/filmes/filme-126127/ acesso em 21/11/2013 às 12:00)



O ponto que mais ressalto e que seria o melhor a se trabalhar em sala usando este filme como material didático é a representação das batalhas medievais. Podemos notar isso logo no início do filme quando é mostrado o cerco realizado pelo Rei Ricardo Coração de Leão, juntamente com seu exército, a um castelo francês o que demonstra uma boa pesquisa em fontes históricas. A presença do rei nas batalhas, forte característica guerras medievais, também é demonstrada no filme, assim como a representação da rivalidade entre Inglaterra e França que acaba por ser muito bem observada na Guerra dos Cem Anos que ocorre séculos depois, um momento que mostra esta relação é quando o irmão do Rei Ricardo tem relações com a sobrinha do rei da Inglaterra o que é interpretado como dormir com o inimigo pela mãe de Ricardo, enquanto para o irmão é como uma estratégia.
Saindo um pouco da linha da Guerra, o filme representa também, de forma muito pertinente, a religião quando a todo o momento você tem referências à igreja católica e aclamações às suas principais figuras, este fato está completamente ligado ao momento em que o filme inicia. O cerco antes mencionado faz parte da última batalha – a terceira cruzada religiosa – onde um dos lideres, Rei Ricardo Coração de Leão, é morto, gerando o enredo da história.
Retornando ao foco da guerra a última cena do filme é fundamental quando se escolhe o foco das batalhas medievais ao trabalhar-se com este filme nas escolas. Esta cena demonstra a utilização dos territórios, no caso relevo, a favor do exército Inglês que possuía a estratégia dos arqueiros ficarem em uma posição mais elevada facilitando o ataque e principalmente a defesa de algumas regiões, nesta questão dos arqueiros é interessante a fidelidade dos arcos. O filme representa muito bem a utilização dos Longbow pelos ingleses e das Bestas utilizadas pelos Ingleses.
A questão de guerra não está ligada apenas a veracidade da simulação das batalhas colocadas no filme, mas também em toda a lógica dos cavaleiros, como o respeito perante o rei em batalha, assim como a presença dele nas batalhas. Outro ponto de ligação com a lógica das batalhas é a ligação especial que se tem muitas vezes com o  trazer notícias as famílias, além de valorizar quem é o portador da mesma, seja ela boa ou ruim, podemos observar no ritual pelo qual Robin Hood é forçado a passar para informar da morte do rei.
No filme pode-se observar também a questão da honra muito presente, seja ela em lutar até a morte, a lealdade aos seus “irmãos de grupo” como é o caso do grupo de Robin Hood, ou a de honrar seus antepassados, garantindo que suas armas antigas e fatos sejam lembrados e passados as próximas gerações.
O imaginário que se faz no filme sobre estas batalhas também merece ser ressaltado em um debate sobre o filme. A ideia da morte em batalha do rei, pode-se observar um ritual criado para estes casos, (como se pode observar quando a notícia da morte do Rei Ricardo chega para a corte real), a manipulação que se consegue através dela e a presença de muitos cavaleiros que não necessariamente está ligada a ideia de glória ou de fé, neste caso ligada a cruzada, mas sim por uma ideia de salário e dinheiro, mesmo que muitas vezes eles não viessem a ter total esperança em receber os pagamentos está ainda era maior que a da fé religiosa, em alguns casos como retratado no filme.
A utilização de luzes e sons são extremamente fortes no filme e contribui para a criação do ambiente. Mesmo se passando na Idade Média o filme não se restringe a usar cores apagadas retratando ambientes escuros, colocando diversas cenas bem iluminas se comparadas as de outros filmes sobre o mesmo período.
Minha proposta, como já deve ter ficado claro, é que este filme seja trabalhado em sala analisando as guerras medievais, das quais ele é um bom exemplo, assim como para trabalhar as diversas interpretações que se tem das lendas dos heróis medievais.
Nesta interpretação da lenda, Robin Hood não é colocado como aquele herói que vive na floresta roubando dos ricos para alimentar os pobres, mas sim como um homem que sempre realiza algo por interesse. Ele vai às cruzadas talvez por fé, mas depois passa a ficar por interesse no dinheiro apenas, ele se passa por marido de uma determinada personagem por interesse no seu passado, por exemplo. A homem que vive nas florestas aqui é representado por um grupo de jovens que podem representar uma mistura que dá origem a lenda de Robin Hood que muitos contam, este grupo será treinado pelo Robin Hood deste filme.

Proposta de Atividade:


Existem diversas versões sobre este herói do imaginário medieval e algumas foram transformadas em filmes e desenhos, assim como em livros e series, e que divergem em muitas características, principalmente na temporalidade de vida de Robin Hood. Baseado nesse ponto das divergências uma boa proposta de atividade seria a de pedir que os alunos se dividam em equipe e pesquisem sobre diferentes manifestações midiáticas que se apropriaram da lenda trazendo para um debate em sala e buscando mostrar como esta lenda se modifica, se adapta e se articula com diferente momentos e culturas notando as divergências e os momentos de igualdade, sempre lembrando aos alunos que não irá existir uma resposta correta, afinal é um lenda, e permitindo que eles criem sua própria visão da lenda adaptada aos dias atuais.

Partindo deste debate em sala é possível discutir a função das lendas e mitos nos períodos em que são (re)formulados, entendidos como espaços de reinvenção do mundo.

Por Igor Lemos Moreira
Aluno do curso de História FAED – UDESC
Turma 2013/1





[1] [1] Esta lista se refere a filmes históricos dirigidos por Ridley Scott